18 Maio, 2024
Santu√°rio do Cristo Rei
Entrada livre
Hora 21:30
Local Almada

PROGRAMA

Tu es Petrus | Maurice Duruflé (1902-1986)
O Salutaris | Pierre Villete (1926-1998)
Tantum ergo | Déodat Sévérac (1872-1921)
Ubi Caritas | Maurice Duruflé (1902-1986)

Requiem, Op. 48 | Gabriel Fauré (1845-1924), versão Pierre Calmelet
- Introit
- Kyrie
- Offertoire
- Sanctus
- Pie Jesu
- Agnus Dei
- Libera me
- In Paradisum

Alexandra Bernardo | soprano
Especializou-se em √ďpera com Elena Dumitrescu-Nentwig. Trabalhou com Joana Levy, Nico Castel e Pamela Armstrong. O seu percurso oper√°tico tem sido feito, em grande parte, atrav√©s das personagens de Mozart como Donna Anna (Don Giovanni), Fiordiligi (Cos√¨ fan tutte), Vitellia (La Clemenza di Tito) e Pamina (Die Zauberfl√∂te), mas inclui tamb√©m interpreta√ß√Ķes de Dido (Dido & Aeneas, Purcell), Euridice (Orfeo ed Euridice, Gluck), Cunegonde (Candide, Bernstein), Violetta (La Traviata, Verdi) Hanna Glawari (Die lustige Witwe, Leh√°r) e Mica√ęla (Carmen, Bizet). Em concerto, destacam-se os Requiems de Brahms, Mozart, Faur√©, Durufl√© e Rutter,¬†Lauda per la Nativit√† del Signore¬†de Respighi,¬†Exsultate, jubilate¬†de Mozart,¬†Magnificat em Talha Dourada¬†de E. Carrapatoso,¬†Gloria¬†de Vivaldi,¬†Magnificat¬†de Bach, a cantata¬†O holder Tag, erw√ľnschte Zeit¬†de Bach, a¬†Fantasia Coral¬†e¬†9¬™ Sinfonia¬†de Beethoven e a 4¬™ Sinfonia de Mahler. Conquistou v√°rios pr√©mios nacionais e internacionais (1¬ļ Pr√©mio e Pr√©mio do P√ļblico no 8¬ļ Concurso de Canto L√≠rico da Funda√ß√£o Rot√°ria Portuguesa, o 2¬ļ Pr√©mio e Pr√©mio do P√ļblico do 15¬ļ Concurso de Interpreta√ß√£o do Estoril, ou o 3¬ļ Pr√©mio no 1st Barcelona Music Festival Competition, entre outros). Tem colaborado com orquestras como Divino Sospiro, Orquestra Sinf√≥nica Juvenil, Ensemble MPMP, Orquestra do Norte, Orquestra de Guimar√£es, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra Sinf√≥nica Portuguesa e Orquestra Gulbenkian. √Č membro fundador da Nova √ďpera de Lisboa.

Armando Possante | barítono
Iniciou os seus estudos musicais no Instituto Gregoriano, tendo conclu√≠do os cursos de Direc√ß√£o Coral, Canto Gregoriano e Canto na Escola Superior de M√ļsica de Lisboa, escola onde actualmente ensina Canto. Foi-lhe atribu√≠do o T√≠tulo de Especialista em Canto pelo IPL. Estudou Canto em Viena com a Professora Hilde Zadek e frequentou masterclasses com os maiores especialistas mundiais. √Č director musical e solista do Grupo Vocal Olisipo e do Coro Gregoriano de Lisboa, tendo-se apresentado em concertos e orientado workshops em todo o mundo. Gravou mais de duas dezenas de discos, com elevado reconhecimento cr√≠tico, e apresentou-se em concerto em toda a Europa, √Āsia, Am√©rica do Norte e Norte de √Āfrica. Conquistou primeiros pr√©mios, a solo e com o Grupo Vocal Olisipo, em v√°rios concursos internacionais em Portugal, It√°lia, Bulg√°ria e Finl√Ęndia.m Apresenta-se regularmente como solista em recital, orat√≥ria e √≥pera, tendo colaborado com as principais orquestras e maestros do pa√≠s.

Sérgio Silva | orgão
Mestre em M√ļsica, Ramo de Interpreta√ß√£o em √ďrg√£o, pela Universidade de √Čvora, sob a orienta√ß√£o de Jo√£o Vaz. Para a sua forma√ß√£o contribuiu o contacto com diversos organistas de renome internacional. Apresenta uma agenda art√≠stica intensa, executando tanto a solo como integrado em agrupamentos de prest√≠gio nacionais, tendo actuado em diversos pa√≠ses europeus e em Macau. Participou em diversas grava√ß√Ķes discogr√°ficas como solista e integrado em agrupamentos, destacando-se a grava√ß√£o do primeiro volume de Flores de M√ļsica de Manuel Rodrigues Coelho, o qual tem sido bem recebido pela cr√≠tica internacional. Paralelamente, tem-se dedicado ao estudo e transcri√ß√£o de m√ļsica antiga portuguesa, tendo colaborado em edi√ß√Ķes nacionais (Obras de Fr. Fernando de Almeida ‚Äď IPL) e internacionais (Flores de M√ļsica de Manuel Rodrigues Coelho ‚Äď ECHO). √Č professor de √ďrg√£o na Escola Art√≠stica Instituto Gregoriano de Lisboa e organista titular da Bas√≠lica da Estrela e da Igreja de S√£o Nicolau.

Direção

Maria de F√°tima Nunes
Natural de Lisboa (1987), realizou os seus estudos musicais no Instituto Gregoriano de Lisboa, √© licenciada em Fisiologia Cl√≠nica (Escola Superior de Tecnologias da Sa√ļde de Lisboa), mestre em Direc√ß√£o Coral ‚Äď ensino e performance (Escola Superior de M√ļsica de Lisboa) e p√≥s-graduada em Estudos Avan√ßados em Polifonia (Escola Superior de Artes e Espect√°culo do Porto). Trabalha regularmente como maestrina e mezzo-soprano nalguns projectos nacionais e internacionais e ainda como professora de coro na Escola de M√ļsica de Nossa Senhora do Cabo. Na √°rea do canto teve oportunidade de trabalhar com Armando Possante e Manuela de S√°. Como solista, realiza alguns concertos em repert√≥rio de v√°rias √©pocas e estilos. Trabalhou com Michel Corboz, Esa Pekka Salonen e Patrice Ch√©reau, John Nelson, Leonardo Garc√≠a Alarc√≥n, entre muitos outros. Fez parte do Tenso Europe Chamber Choir (Kaspars Putnins) e participou em v√°rios festivais de renome na Europa integrando v√°rios agrupamentos, como o Festival de Ambronay (FR), Festival d‚ÄôAix en Provence, Oude Muziek (NL). Recentemente, foi respons√°vel pela prepara√ß√£o do Coro da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e integra a direc√ß√£o art√≠stica do Coro Regina Coeli de Lisboa a partir de Setembro 2023. √Č maestrina assistente do Coro Participativo do Summer Choral Festival of Lisbon (desde 2017) e do Coro Participativo da Funda√ß√£o Calouste Gulbenkian (2017, 2018 e 2024). √Č assistente da direc√ß√£o art√≠stica do Coro Gulbenkian e maestrina assistente do Ensemble S√£o Tom√°s de Aquino. Como cantora de ensemble, trabalha regularmente com o Choeur du Chambre de Namur (BE), Vocal Ensemble (Vasco Negreiros) Officium Ensemble (Pedro Teixeira) e Coro Gulbenkian (PT).

ORQUESTRA REGINA COELI DE LISBOA
A Orquestra Regina Coeli √© um agrupamento criado pela Concertato para servir de apoio √†s produ√ß√Ķes art√≠sticas do Coro Regina Coeli de Lisboa. Apresentar√° forma√ß√Ķes variadas de acordo com o repert√≥rio proposto que poder√£o ir desde pequenos ensembles (Quarteto para o Porgy & Bess) at√© pequena orquestra (Requiem de Faur√©) ou orquestra completa em futuras apresenta√ß√Ķes j√° agendadas. √Č objectivo da ORC proporcionar oportunidades profissionais a jovens m√ļsicos portugueses que d√£o os seus primeiros passos na vida art√≠stica.

M√ļsicos
Luísa Semedo | violino
Joana Moser Vasconcelos | viola d'arco
Margarida Vieira | violoncelo I
Ana Carolina Rodrigues | violoncelo II
Luísa Marcelino | contrabaixo
Henrique Cimbron | trompa I
Jo√£o Junceiro | trompa II
Salomé Matos | harpa


NOTA AO PROGRAMA

O Requiem de Gabriel Faur√©: uma jornada lit√ļrgica rumo √† luz

A tradi√ß√£o coral francesa, com a sua rica textura e profundidade emocional, encontra a sua express√£o mais et√©rea na obra de Faur√©, cujo Requiem oferece uma vis√£o serena da morte e da vida ap√≥s ela. Dentro deste mesmo tecido espiritual, Pierre Villette contribui com O Salutaris, uma pe√ßa que, com a sua linguagem harmonicamente sofisticada, dialoga com a simplicidade e o fervor religioso que permeiam a composi√ß√£o de Faur√©. Maurice Durufl√©, um mestre na fus√£o de canto gregoriano com sensibilidade moderna, adiciona ao repert√≥rio duas pe√ßas vitais: Ubi Caritas, que celebra o amor e a comunh√£o humana, com linhas vocais que parecem abra√ßar o ouvinte, e Tu es Petrus, uma proclama√ß√£o de f√© firmemente ancorada na rocha de S√£o Pedro, oferecendo um contraponto robusto √† suave acolhida de Faur√© ao repouso eterno. D√©odat de S√©verac, com o seu Tantum Ergo, presta uma homenagem ao ritual e ao sagrado, compondo com um lirismo que ressoa com o chamamento √† esperan√ßa e √† luz eterna, encontrados no In Paradisum de Faur√©. Cada uma destas pe√ßas entrela√ßa-se na grande tape√ßaria da m√ļsica sacra francesa, enriquecendo o di√°logo entre o divino e o humano, entre o c√©u e a terra, que Faur√© t√£o habilmente iniciou.

No universo da m√ļsica sacra, o Requiem de Gabriel Faur√© emerge como uma obra singular, marcando um ponto de inflex√£o na renova√ß√£o da m√ļsica lit√ļrgica francesa ao alvorecer do s√©culo XX. Composta entre 1887 e 1888, a pe√ßa nasce com apenas cinco movimentos essenciais ‚ÄĒ Introit et Kyrie, Sanctus, Pie Jesu, Agnus Dei e In Paradisum ‚ÄĒ aos quais Faur√©, em revis√Ķes posteriores, adicionou o Offertoire, com a se√ß√£o Hostias, e o Libera me, ampliando a sua vis√£o e aprofundando o seu di√°logo com a eternidade.

Distanciando-se das tendências dominantes da sua época, que favoreciam o lirismo exuberante do bel canto italiano e a grandiosidade da tradição sinfónica alemã, Fauré ousa trilhar por um caminho distinto. O seu Requiem ancora na simplicidade e na introspeção, empregando uma vocalidade que ecoa o canto gregoriano e uma orquestração que privilegia a intimidade, com harmonias que se aproximam do impressionismo. Este Requiem não é um clamor perante a morte, mas um sussurro que acalenta a alma, um convite a contemplar a transição para a vida eterna com serenidade e esperança.

Desde os primeiros compassos do Introit, Faur√© estabelece um di√°logo entre a sombra e a luz. A escurid√£o inicial cede lugar √† promessa da lux perpetua, a luz perp√©tua, simbolizando a morte como um prel√ļdio para a ascens√£o espiritual. O Offertoire, com o seu c√Ęnone intricado, que invoca a figura de Cristo numa tr√≠ade simb√≥lica que se desenrola sobre um fundo de tens√Ķes harm√≥nicas, apenas para se resolver na luminosidade de um Amen triunfante.

O Sanctus, com o di√°logo entre as vozes femininas e masculinas, pinta um quadro de celestialidade, enquanto o Pie Jesu, entregue √† pureza da voz do Soprano, revela-se como um cora√ß√£o que bate no centro da obra, uma s√ļplica por descanso e paz. O Agnus Dei, por sua vez, contrasta temas expressivos com interjei√ß√Ķes corais dram√°ticas, culminando num momento de sublime beleza onde a palavra lux se torna no farol que guia a alma para al√©m do v√©u terreno.

Nos movimentos finais, Faur√© navega pelas √°guas do contraste: o Libera me, com a sua cad√™ncia solene e solo implorante do bar√≠tono, enfrenta brevemente as sombras antes de reencontrar a luz na recapitula√ß√£o coral. √Č no In Paradisum que a obra se dissolve numa melodia et√©rea que parece transportar o ouvinte para um reino de paz e esplendor.

Gabriel Faur√©, ao compor este Requiem, n√£o apenas redefine o g√©nero, mas oferece uma nova perspetiva sobre a morte ‚ÄĒ n√£o como um fim, mas como um in√≠cio, uma "entrega feliz" nas palavras do pr√≥prio compositor. A sua obra, ent√£o descrita por alguns como uma "can√ß√£o de embalar f√ļnebre", √© na verdade um hino √† esperan√ßa, uma afirma√ß√£o da beleza e da continuidade da vida espiritual. Este Requiem n√£o √© apenas m√ļsica, √© uma medita√ß√£o, um b√°lsamo para a alma que busca conforto na promessa de uma luz que nunca se extingue.